I'Ã: FOTOFRAGMENTOS DE UMA AMAZÔNIA AMAPAENSE

Atualizado: 11 de fev. de 2021


"O que se olha, o que se vê não pode ser qualquer olhar"


Vivemos num mundo inflacionado e saturado de imagens. Nosso mundo tornou-se hipervísivel; mas, paradoxalmente, este excesso de imagens acaba nos cegando, dando a este mundo uma tal opacidade que não conseguimos vê-lo. O que fazer diante desta superexposição e sobreposições de imagens que nos atingem diariamente? Acreditamos, concordando com o filósofo Nelson Brissac, que se faz necessário cada vez mais pensar e constituir uma ética das imagens. Uma ética das imagens, diz o filósofo, "é dar tempo e lugar para as coisas, aquilo que elas precisam para ser; é saber atentar para o tempo e lugar das coisas, restituir a lentidão às imagens de modo que se possa fazer ver o invisível no hipervísivel". Ser capaz, através de um click, captar o instante em que, de certo modo, todas as coisas se compõem antes de se dissolverem na desordem do mundo é o grande desafio da fotografia contemporânea.

A exposição fotográfica “I’ã: FotoFragmentos de uma Amazônia Amapaense” do artista visual Paulo Rocha cumpre este desafio. Não à toa, retoma para si, como inspiração, como dispositivo ético-estético, o conceito de imagem da cosmologia Wajãpi, que ultrapassa o sentido de simples registro ou representação fotográfica, como nós, brancos, entendemos. O conceito de imagem para este povo de falantes nativos da língua Tupi, que habitam o território transfronteiriço do Amapá-Guiana Francesa, é plurissignificativo, significa ao mesmo tempo: alma, memória, experiência, princípio vital, sintetizados na palavra I’ã. Para os Wajãpi as marcas das mãos e a alma de quem faz seus artefatos ficam para sempre neles. As fotos do Paulo Rocha têm as suas mãos e a sua alma. É o que nós costumamos chamar de marca, estilo, estética, concepção. Todos nós que já fomos agraciados pela sua captura fotográfica vamos apontando: “é do Paulo!”. Provavelmente, porque também reconhecemos na imagem nosso princípio vital (I’ã) capturado. Assim, ele vai tecendo seu ‘topasã’ (tipo de caminho) onde cada ponto de parada, cada I’ã capturado, é um olhar singular sobre a diversidade: gente, bicho, paisagem, coisa/animal, vegetal, mineral, próprios da nossa Amazônia, fazendo-nos ver, por intermédio de sua lente sensível e lúdica, neste fluxo intensivo em que tudo existe, a extraordinária presença do invisível.





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