BONEDOG POR ISABELA LIMA

Atualizado: 11 de fev. de 2021

ISABELA LIMA, escritora, é a integrante do Tatamirô que sempre dá aquela chacoalhada n@s pirôs pirad@s trazendo a gente para o ponto (P)oesia, lembrando que não devemos/podemos nos tornar um grupo burocrático.


Em nosso primeiro encontro virtual de 2021, Isabela leu para nós a tradução do Poema “BONEDOG” da poeta canadense Eva Haralambidis – Doherty (EVA H. D.) depois de nos envolver com sua narrativa sobre o roteiro do filme “ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO” de Charlie Kaufman.


arte: miki w.

“Vou compartilhar o print com o nome do filme que mencionei no encontrinho ontem: no filme, a personagem recita o poema ‘bonedog’, da poeta Eva. H.D.. Então... Fiz um vídeo-poema (uma tentativa de recitá-lo), pois ele me pegou de um jeito que eu precisei fazer por onde rsrsrs”

“P.S.: Tentei mandá-lo, mas o WhatsApp corta. Vou encaminhar aqui o link do instagram com a publicação que fiz por lá do vídeo-poema. ” (B.)

“Bonedog"

Voltar pra casa é terrível, quer os cães lambam o seu rosto ou não. Se você tem uma esposa ou apenas solidão em forma de esposa esperando você, voltar para casa é terrivelmente solitário. De tal modo que você pensará na opressora pressão barométrica lá de onde acabou de voltar com afeição, pois tudo é pior após chegar em casa. Você pensa nas pragas grudadas nos talos da grama, longas horas na estrada, assistência rodoviária e sorvetes e as formas peculiares de certas nuvens e silêncios com nostalgia, porque você nem queria voltar. Voltar para casa é... simplesmente horrível. E os silêncios caseiros e nuvens não ajudam em nada, além do mal-estar geral. Nuvens, do jeito que elas são, são de fato suspeitas e feitas de um material diferente, do que daquelas que você deixou para trás. Você mesmo foi cortado de um outro pano nublado, devolvido, remanescente, malfadado pelo luar, infeliz por estar de volta, esgarçado em todos os pontos errados, um terno desfiado, maltrapilho, surrado. Volta pra casa, aterrissado da lua, forasteiro. A força gravitacional da terra, um esforço agora redobrado, desamarrando seus cadarços e os seus ombros, entalhando mais fundo a estrofe de suas preocupações em sua testa. Você volta para casa afundado, um poço ressecado ligado ao amanhã por um frágil fio de... Enfim. Você suspira no massacre de dias idênticos, que é melhor aceitar, de uma vez. Bem... enfim, você voltou. O sol sobe e desce como uma puta cansada. O clima imóvel como um membro quebrado, enquanto você não para de envelhecer. Nada se move, além das marés de sal no seu corpo. Sua visão embaça, você carrega o seu clima com você, a grande baleia azul, uma escuridão esquelética. Você retorna, com uma visão de raio x, seus olhos se tornaram famintos. Você volta pra casa, com seus dons mutantes, para uma casa óssea. Tudo o que você vê agora, é tudo... osso.


(Poema Bonedog, de Eva H.D.)


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